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Rita Teixeira da Silva

Dom | 01.11.20

Isto (não) é sobre ficção

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Houve momentos em que sentiste que estavas errado. Não errado num teste, numa resposta, numa prova. Errado, profundamente errado na vida.

Os clichés, são-no porque, em princípio, têm um fundo de verdade. Com uns concordamos, com outros não, mas a ideia de que os momentos menos felizes nos fazem crescer e nos mostram quem temos (quem temos verdadeiramente) é uma realidade. Sentiste isso, não foi?

Por mais que aceites os outros, sabes quem tens. E são tão poucos, não é?

A maior parte das vezes que nos sentimos sós, não estamos, ou estamos apenas temporariamente. Mas tu sabes o que é estar sozinho, por isso dás tanta importância às presenças que hoje tens.

Estranho como exigem tanto de ti, tanto da tua presença, da tua palavra, de uma chamada, quando, durante mais de uma década nenhum dos exigentes dispensou um momento para perguntar se estavas só, se precisavas de companhia, se precisavas de falar. E tanto que calaste, não foi? E tanto que ainda calas, não é?

Mas ninguém olha, ninguém vê. Todos têm uma visão que trespassa mas não se detém. Não se detém em ler-te, em sentir-te, em compreender-te. E tu que tanto de esforças por entender os outros, os tropeços, as quedas, os erros.

E como te sentiste errado. Como sentiste que, de alguma forma, deverias merecer o que te caía no colo. Esses pesos nunca soldados por ti, pelas tuas mãos, mas sempre pelas de outros que acharam que podiam. E puderam, porque te fizeram sentir errado. Tu, na tua maturidade infantil (porque eras uma criança) deixaste-te cair nesse sentimento. De estares errado. Errado na vida.

Nunca pensaste em desaparecer literalmente, mas terias gostado de fazer uma pausa. Era bom que desse, mas os problemas insistiam em estar ali tão rotineiros, tão sarcásticos, tão inacreditáveis, sempre perto e no horizonte. E não havia com quem falar. Não te entregaste a nenhum deus, porque nunca o tinhas feito, porquê fazê-lo agora quando precisavas de garantias de resolução e não havia relação com nenhum deus? Ainda não há.

Resolveste alguns problemas, foste vivendo e permitindo que ela (que estava ali, qual pétala de papoila) sobrevivesse. Desdobraste-te, foste toda uma árvore genealógica, foste ombro amigo e foste quem encosta a cabeça para chorar. Foste inspetor, médico, filho, pai, mãe. Foste tanto e, por dentro, tão pouco. Mas só quebravas no silêncio gritante do teu quarto, na escuridão dos lençóis. Era o único momento em que eras tu próprio (pelo menos a 70%), não te podias habituar a isso porque todos os dias representavas. Sentias-te tão errado e ainda não imaginas quão certo estavas.

E os outros? Havia 1 pessoa e meia. Ela estava pela metade, não podia arcar com os pesos dela, quanto mais com os dos outros. E tu tentavas ser uma presença leve naquela tristeza profunda que a estrangulava. Tentavas ser um balde de água límpida e fresca no poço escuro e ermo que a afogava.

Hoje ela está inteira, tirando alguns pedaços que foram caindo pelas balas que suportou. Está linda e é incrível tu poderes assistir a isso. Uma papoila inteira, cujas folhas não se soltam com um sopro vil. Para além dela, aquela outra pessoa ainda cá está. Outros se foram aproximando, mas vão e vêm. Exigem de ti o que nunca te deram.

Que não te falem de idade como sinónimo de maturidade e experiência, que não te digam que há coisas mais importantes do que a vida, que não te apontem o dedo por não telefonares e estares algum tempo sem dizer nada, que não te garantam que podes contar com eles quando, na verdade, te pedem camufladamente que não levantes poeira, que não apontes para os problemas e que respondas um lacónico "está tudo bem" para que eles sigam caminho. Que não te julguem e que não esperem mais de ti.

Este é um texto sobre um desespero passado, sobre um fantasma que nunca vai embora, sobre uma preocupação que te acompanhará para sempre, sobre a mágoa que teima em não partir. Isto é sobre a depressão que viste fora de ti.

Este artigo é o divã, a escrita, a tua psicanálise.