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Rita Teixeira da Silva

Sex | 26.03.21

Janela com vista para a realidade crua em O Diário de Anne Frank

O Diário de Anne Frank.png

Estava, naturalmente, com muita expectativa em relação a este livro. Esta obra é um marco na nossa História e é "obrigatório" para leitores ávidos.

«Agora que estou a reler o meu diário após um ano e meio, estou surpreendida com a minha inocência infantil.»

Esperava (não que desejasse), estupidamente, um relato cru daquilo que foi o Holocausto. Mas este livro valiosíssimo é nada mais nada menos que um relato rotineiro de uma menina de cerca de 13 anos. Calha que esta menina viveu num dos momentos mais difíceis pelos quais a Humanidade já passou, mas não deixa de ser a vida e perspetiva de uma menina.

O mais interessante e natural é que este momento histórico por que ela e a sua família passaram não é o foco principal dos seus desabafos. Estas mais de 440 páginas estão repletas de relatos naturais da transição, neste caso feminina, da infância para a adolescência, com todas as mudanças, dúvidas e incertezas.

«Desejos, pensamentos, acusações e censuras rodopiam como um turbilhão na minha cabeça.  Não sou na verdade tão presumida como muitas pessoas pensam; conheço os meus defeitos e as minhas falhas melhor do que ninguém, mas há uma diferença: também sei que quero mudar, que vou mudar e que já mudei bastante!»

Anne Frank fala-nos da escola (antes de ter de se refugiar no Anexo), das amigas, das colegas menos interessantes, de amor, de descoberta. Fala-nos também de forma muito honesta e despida de pudor da relação com todos os habitantes do Anexo. É arisca e mordaz nos seus comentários, respondona e dona de si, é independente, madura e decidida. Sabe bem para onde quer ir e por onde não quer passar, sabe o que quer ser e quem quer levar consigo na caminhada. Sabermos que, à exceção da publicação de um livro seu, nada do que sonhou se vem a realizar, é uma facada no peito. É uma rapariga muito interessante e dona de uma personalidade singular. Falando de mim, agora, posso dizer que me identifiquei muito com Anne Frank. Tanto, que tornou tudo ainda mais doloroso.

«Encorajada pelo bom exemplo do Papá, a Mamã colocou nas minhas mãos o seu livro de orações. Li algumas orações em alemão, apenas para não parecer mal-educada. Não há dúvida de que soam muito bem, mas significam pouco para mim. Porque é que ela me quer obrigar a ser tão religiosa e devota?»

Obriguei-me, várias vezes durante a leitura, a relembrar-me de que o que estava a ler era real. Tinha acontecido, e não há tanto tempo assim. Infelizmente, não é uma porta que se fechou no século passado e que podemos descansar porque nunca mais se vai abrir e causar corrente de ar.

«As pessoas normais nem sonham como os livros podem ser importantes para alguém que está engaiolado.»

Guardo este livro com um carinho muito profundo na minha bagagem. Nunca o vou esquecer e vou fazer por sempre o lembrar (também com a ajuda das muitas marcações que fiz).

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