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Rita Teixeira da Silva

Sex | 19.03.21

Os Testamentos, de Margaret Atwood

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Que livro absolutamente estrondoso e essencial para quem leu A História de uma Serva. Eu li, como sabem, e entrou nos meus favoritos de 2020 e de sempre (em breve sairá vídeo no canal de YT sobre os melhores de 2020). Se o primeiro volume da duologia foi bom, este foi incrível.

O livro abre a janela para que possamos espreitar a vida e pontos de vista de três personagens: a de Tia Lydia (seria expectável esta abordagem, e foi muito enriquecedora), a de uma rapariga nascida e criada em Gileade e a de uma rapariga que vive fora do condado.

«Tem de se perceber que eu não era alguém por direito próprio - embora pertencesse à classe privilegiada, eu não passava de uma rapariga confinada ao matrimónio. Matrimónio: tinha um som metálico abafado, como uma porta de ferro a fechar-se.»

Embora acabe por ser impossível desculpar as atrocidades cometidas por mulheres contra mulheres, ficamos ainda com mais certeza de que todas as mulheres de Gileade, quer ocupem cargos de relevo ou desempenhem funções "menores", são vítimas. Todas as figuras femininas são peões nas mãos de um grupo de homens que quer crer e fazer crer que está a trazer o melhor ao mundo.

«Estúpida, estúpida, estúpida: tinha acreditado naquela conversa toda da treta sobre a vida, a liberdade, a democracia e os direitos individuais, que interiorizei na Faculdade de Direito. Eram verdades eternas que defenderíamos sempre. Eu depositava nelas toda a minha confiança, como num amuleto mágico.»

A aproximação à palavra de Deus acaba por criar um afastamento brutal entre o Homem e os princípios supostamente benignos dessa entidade superior, bem como entre os seres humanos. Este último é um afastamento pernicioso, seja em prol do que for.

Esta é mais uma distopia que, muito para além de entreter (e de que maneira), nos dá uma lição: não tomemos nada como garantido. Não há nada que nos seja intrínseco e nada nos está assegurado. É preciso lutar todos os dias, seja de que forma for e da forma que nos for possível, por melhorarmos o que temos e nunca perdermos os direitos e as liberdades que conquistámos.

O facto de esta continuação vir a ser lançada mais de três décadas após o lançamento do primeiro livro poderia ter dado para o torto e acho que o receio foi geral no seio do grupo de fãs da obra. Na verdade, Atwood vem, mais uma vez e de forma ainda mais pungente, afirmar a sua mestria. Uma escritora incrível, uma mulher inteligentíssima e que sabe o que significa usar a literatura ficcional em prol de um mundo real mais atento.

Se leram A História de uma Serva, façam um favor a vós próprios e leiam Os Testamentos.

Quais são os vossos pensamentos acerca desta obra?