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Rita Teixeira da Silva

Sex | 12.03.21

Pra Cima de Puta, de Cristina Ferreira

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Confesso que não é o estilo de livro que me costuma atrair, mas o Pra Cima de Puta não é só mais um livro que encaixa naquele separador que me afasta um pouco chamado "agora toda a gente publica livros".

Pra Cima de Puta é uma semente que é premente semear (passo o pleonasmo), regar e cuidar. Esta é uma discussão essencial e da qual dependemos para sermos melhores, individualmente e em grupo.

«Este livro é um ponto de partida para o estudo desse fenómeno desumano, criminoso, da agressão na internet, mas é também um passo mais no entendimento de como uma mulher, por se tornar uma heroína, é vista enquanto ornitorrinco na cidade que se pensou ser dos homens.»

Chega de evolução significar pura e simplesmente avanço tecnológico e poderio económico. É preciso fazer uma pausa e deixar que esses crescimentos se acompanhem de um que, a meu ver, é muito mais relevante: o interno.

Temos tudo e não somos nada e aplaudimos este espetáculo mudo, vazio e sem nexo.

Cristina Ferreira traz à tona aquilo de que todos temos conhecimento mas que ignoramos pronta e deliberadamente.

Para além de um brilhante prefácio de Valter Hugo Mãe, o livro é composto por um compêndio das alarvidades que são dirigidas a esta mulher que, felizmente, tem força para as enfrentar e para fazer com elas o mais indicado: sorrir, acenar, mas, acima de tudo, provocar debate. Nem todos teríamos esta capacidade, diria eu.

«Há uma necessidade intrínseca de inteligência no amor. Como há uma estupidez natural em sucumbir ao ódio.»

É feita uma reflexão ao longo do livro que esmiúça a amostra de ataques vis e que procura entender os seus verdadeiros significados.

«Tento pôr-me no lugar do maior dos infelizes e dos frustrados e não consigo encontrar motivo para, em vez de estar insatisfeito comigo próprio, achar que devo agredir alguém.»

Por fim, temos acesso a pequenos contributos de pessoas das mais variadas áreas (Direito, Psiquiatria, Filosofia, entre outras) que buscam entender a razão por detrás dos comentários escabrosos que mancham diariamente as redes sociais de Cristina Ferreira.

«A impunidade desta hostilidade constante é um veneno na sociedade de hoje.»

Aqui não se trata de preferências por x ou y, aqui fala-se de seres humanos que, como eu e muitos de vós (espero), vivem, trabalham, buscam vidas boas e procuram ser melhores. Fala-se também de outros que nem tanto e que, ao invés de apoiar, se armam em caranguejos. Conhecem esta história? Os caranguejos poderiam sair todos juntos do aquário e viver em liberdade se se entreajudassem mas, por outro lado, usam as suas tenazes (boa analogia) para atrapalhar a subida do outro. Esta história é-me regularmente contada pelo meu pai. É, afinal, tão reveladora da natureza do ser humano. Perdão, do caranguejo.

Leiam este testemunho, ou outro qualquer livro que vos fale de respeito pelo outro. Vamos todos pôr a mão na consciência.

Opiniões por aí?

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