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Rita Teixeira da Silva

Sex | 21.08.20

Sobre o isolamento em 2020

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Admito que, ao contrário do que me parece ser o sentimento geral, não compreendo o desespero de quem está dentro de casa - a nova trincheira. Posição mais segura nesta guerra não poderia haver. 

Ainda assim, insistimos em gritar a nossa insatisfação por estarmos em quarentena. Se já se tem vindo a notar que não damos valor ao que temos (é natural na generalidade dos seres humanos), esta é a prova dos nove.

Estamos onde sempre pedimos para estar, em casa. Esta é também a prova de que Variações tinha razão: só estamos bem onde não estamos, a fazer o que não fazemos e a ter o que não temos.

Não, não sou fatalista e não acredito que foi uma espécie de oportunidade divina para aprendermos a dar valor à liberdade de que habitualmente dispomos. Não, não percebo os pais que já não podem ver os filhos à frente nem os casais que já não conseguem respirar o mesmo ar. Não, não compreendo porque é que acreditamos que o destino invariável é a separação. Não entendo como podemos estar fartos dos que escolhemos ter a nosso lado.

E não, não vejo isto como férias (até porque continuo a trabalhar, a partir de casa) nem estou desejosa de sair. Na verdade, até me sinto bastante mais produtiva aqui, poupo o dinheiro do passe e dispenso perfeitamente aquilo de que me queixo todos os dias (o sufoco dos transportes públicos). 

Se estou feliz? Não, mas não acredito que EU seja o centro do universo nem que esteja em sofrimento. Afinal, tal como sempre, basta olhar para o lado e percebo que realmente há quem esteja mal, verdadeiramente mal, e nesses momentos eu percebo que tenho uma sorte… Olho para o lado e confirmo apenas que sou uma migalha neste tabuleiro gigante e que não posso ser egoísta ao ponto de achar que o mundo me quer mal. De achar que a vaidade mascarada de rebeldia e heroísmo de quem sai à rua e se pavoneia, quando o único pedido que nos foi feito foi o de ficarmos em casa, é o caminho.

Como é que, de repente, abrir a porta de casa e sair se tornou a nossa maior ambição quando, no resto do ano, estamos ansiosos de abrir a porta de casa e nos enclausurarmos nela depois de um dia de trabalho? 

O incrível é que quem se queixa mais, quem reclama da injustiça de um confinamento forçado, é quem tem paredes, portas que se podem fechar, janelas que se podem abrir para o ar entrar, é quem tem o que comer, água quente e, arrisco a dizer, quem tem possibilidade de trabalhar a partir de casa e que, por isso, tem dinheiro. O mundo mudou menos para quem se queixa mais. 

Para além de tudo isto, têm também o que escasseia no resto do mundo que vive assoberbado com a pandemia e que, lá ao fundo, não vê a PlayStation do filho (que já não se aguenta e que qualquer dia vai pela janela), mas a incerteza, o desespero, o fim da linha. Têm tempo. Dizem que é dinheiro, não é? Pois, para nós, os mimados, parece que é aborrecimento, inércia e descontentamento. 

Nada nos basta, nada nos satisfaz, ter tudo é pouco.

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